O EMPRESÁRIO

Não entendo o que esta gente quer. Uma pessoa trabalha, trabalha e quando vai para a cama vai a pensar como é que amanhã vai conseguir pagar aos empregados. E eles vão-se embora para casa dormir descansados sem preocupações. E depois o que se recebe é ingratidão.

A minha mãe diz-me para ter calma. Que os trabalhadores se andarem satisfeitos trabalham mais e melhor. Eu até acredito nisso, não pensem que sou um mau patrão. Nada disso! Mas há dias em que perco a paciência.

No tempo em que a minha mãe abriu o restaurante acho que era mais fácil, sei lá, acho que as pessoas tinham mais respeito, eram mais agradecidas. Lembro-me bem da dona Gracinha sempre metida na cozinha, às voltas com os tachos, as panelas, as frigideiras. Quando eu era pequeno, vinha do jardim-escola e a minha mãe tinha que servir às mesas, aí eu ficava a brincar na parte de dentro do balcão. A dona Gracinha ficava com um olho nos tachos e outro em mim. Uma vez apanhei-a distraída um bocadinho, quis ver o que estava num alguidar em cima da mesa, que cheirava tão bem. O alguidar escorregou, não tive força para o segurar, caiu no chão e partiu-se. Além de se partir espalhou a lebre em vinha d’alhos pelo chão. Uma lebre que, soube depois, era para um grupo de empregados do banco que tinham mesa reservada para a noite. Acho que um deles fazia anos. A minha mãe apanhou aquilo tudo do chão, limpou o chão, atirou tudo para o lixo. A minha mãe era daquelas pessoas antigas. Nesse tempo ainda não havia a malfadada ASAE, nunca entendi porque é que ela não aproveitou a lebre, depois de bem lavadinha alguém ia notar alguma coisa? Não me lembro como é que ela fez para resolver o jantar dos bancários, porque até tenho uma vaga ideia que a lebre tinham eles trazido.
A dona Gracinha desfazia-se em desculpas por não ter tomado conta de mim como deve ser. Até chorou. E a minha mãe deu-me umas chineladas a mim que era pequenino e irresponsável.

O meu pai trabalhou na Lisnave. Quando recebeu a indemnização, venderam a casa da Cova da Piedade e viemos para baixo. Acho que ele recebeu uma indemnização boa, não por me lembrar mas porque tenho ouvido dizer que nessa altura o estado assumiu as indemnizações às pessoas despedidas, o que acho muito bem. Eu era muito pequenino, tenho poucas lembranças desses tempos. Depois veio o divórcio. Quando abriram o restaurante acho que já as coisas corriam mal entre eles. Ele depois saiu de casa para se juntar com a actual mulher que também tinha, e tem, um restaurante, mas em Almadrava, mesmo à beira-mar. No Verão dá muito.

Acho que a dona Gracinha trabalhou no nosso restaurante desde o início. Desde que me lembro eram as duas: ela na cozinha que ficava na parte de dentro do balcão e a minha mãe nas mesas, e quando podia dava-lhe uma ajuda na cozinha e no serviço de copa que era tudo junto.
Depois a casa foi ganhando clientes, a dona Gracinha cozinhava muito bem, foram admitindo mais colaboradoras, nesse tempo diziam empregadas, e tiveram que aumentar a cozinha. Por sorte o dono da mercearia ao lado vendeu-a à minha mãe, aquilo também estava sempre às moscas. As grandes superfícies rebentaram com tudo o que era pequeno comércio. Para nós até deu jeito. Juntaram as duas casas e é assim que está até hoje. A casa está muito bem situada, perto dos bancos, da câmara municipal, das finanças e do tribunal. O nosso serviço de almoços é mais virado para essas pessoas. À noite trabalhamos com outro tipo de clientes, menos refeições, mas mais caras. Não temos parque de estacionamento mas também não sentimos a falta.

Quando a minha mãe teve o AVC, que não a matou mas a deixou com sérias dificuldades quer nos movimentos dos membros do lado direito, como também na fala, eu como filho único deixei o meu emprego nas finanças, pedi uma licença sem vencimento e dediquei-me a tomar conta do restaurante.
Comecei a fazer contas e tive que despedir duas colaboradoras. A minha mãe não tinha mão nelas. Aquilo era chegar à hora e iam-se embora sem dizer água vai, não importava que faltasse limpar a casa, arrumar tudo, preparar as coisas para o dia seguinte. Não, era ala que se faz tarde. E tive que ser eu a pagar as indemnizações, porque o tribunal de trabalho me obrigou. Como é que querem que o país vá para a frente? Uma pessoa paga os nossos impostos, paga a segurança social, paga seguros, paga tudo e não sobra nada.
É uma roubalheira, este estado. Imaginem que pago de IMI da minha vivenda mais de mil euros. Não sei o que eles fazem ao dinheiro. Ainda nem consegui pagar o Mercedes 300, é um sufoco constante.

Mas o que mais irrita é uma pessoa arranjar-lhes trabalho e depois ainda parece que nós é que lhes devemos. Imaginem que agora deram-lhes para pedir aumento. Ora eu já pago acima do ordenado mínimo, seiscentos euros cada uma, a cozinheira é que leva setecentos, mas é uma excelente cozinheira. Imaginem que até a pindérica que vem do IEFP como estagiária acha que tem direito a aumento. Desde há seis anos, quando tomei conta do restaurante, costumo ter cá sempre uma pessoa que vem do IEFP, e já passaram cá por casa pessoas muito capazes. Mas como esta nunca tinha acontecido. Ainda hoje vou ao IEFP e devolvo-a, ai isso é que devolvo.


Zé Varela – Abril 2018

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