O CIÚME

A mulher foi entrando. Um rosto parecido sair de uma daquelas lengalengas antigas que se contavam à lareira antes de terem inventado a telefonia, quanto mais a televisão. Toda ela era preto, menos a cara e as mãos, que eram um pouco mais claras. Pele curtida por muitos sóis e muitos ventos. Olhos inexpressivos.
Só deram por ela quando escureceu na cozinha devido à sombra.
– Quer ler a sina, senhora?
– Não! Aqui ninguém precisa de ler sinas. – foi um erro estratégico.
A Lucrécia apurou as antenas:
– Não quer? Quem é que disse que não quer?
A cigana topou o furo.
– Sinto que há traição nesta casa.

Dizem que aos moribundos lhes passa o filme da vida na frente antes da morte. Pois não é só aos moribundos. A António, nos breves instantes que se seguiram, passou um filme de pesadelo.

Uma vez:
– Pensas que eu sou cega? Que não vi a maneira como vocês trocavam olhares?
António até tremia quando ela convidava amigas para ir lá a casa.

Outra vez:
Ela deitada no chão, a deixar-se cair quando ele a levantava, e ele, parvo, a falar com a senhora do 115. A senhora do 115 devia estar habituada a casos com os mesmos contornos, pois não se comoveu nada.
– Dê-lhe tempo que vai acalmar, vai ver…

Outra:
– Porque é que a foste beijar?
– Era só o que me faltava agora não poder cumprimentar uma amiga de infância.

Ainda outra:
– Tinhas que lhe dar passagem?
– Estás esquecida que quando viemos dali também dependemos de nos darem passagem, senão nunca mais entramos?
– Pois, engana-me que eu gosto.

E mais umas quantas:
– Não foste simpático com a minha amiga? Deves ter alguma coisa para esconder.

– Tantas simpatias com a minha amiga? Até parece que és um homem descomprometido.

– Que pouca vergonha, nem os maridos respeitam, mesmo na frente do marido a fazer-te olhinhos.

– Porque é que tens que olhar as mulheres nos olhos? Que pouca vergonha!

E para culminar:
– Porque é que ias pela rua abaixo sempre a olhar para trás?
– Para ver se já vinhas aí e vires comigo ao pé do rio comer um gelado. E porque é que sabias que eu ia a olhar para trás. Onde estavas?
– Estava atrás da montra da Clarisse…
– Agora já tens ciúmes até de ti própria?

– Eu posso fazer uma magia para acabar com todas as traições no casal. – a cigana tomava o comando.
– Custa é dinheiro.
E lá vamos nós. A ver se a Lucrécia não se lembra dos 40 contos da venda da mota, quase que rezava o António.
Sabia que não podia recusar senão para ela seria a prova da traição. Traição que só existia na cabeça da mulher mas estava de pedra e cal.
– Só temos 200 escudos.
A cigana viu a indignação nos olhos da Lucrécia.
– Isso não é nada. Assim vou-me embora. Não faço aqui falta.
– Espere! O meu marido vendeu a mota que era do pai e ele não usava. E foi buscar os 40 contos…

Um mês depois:
– Que é isto?!
– Isto o quê, Lucrécia?
– Não te faças de parvo – e mostrava um saquinho de plástico apanhado do tapete do carro. – Ainda não sabes o que é? – e já gritava.
– Pois não, não sei o que é. Deve ser da embalagem de alguma anilha que o mecânico deixou durante a revisão. – deixa ver melhor.
– Não deixo nada! Demais sabes tu o que é. Queres atirar-me areia para os olhos?
António calou-se.
Ela tinha acabado de chegar da casa da mãe. Quinze dias fora, um quarto de hora depois de chegar começava a guerra.
– Então? Agora calas-te? Acho melhor, sabes que tenho razão…


Zé Varela – Setembro 2017

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