LÁ DO ALTO DA TORRE

Era um livro antigo. O título seria algo como “Monumentos de Portugal”, se não era exactamente isso não andava longe. A fotografia era antiga, a preto e branco desbotado. Um palácio com uma torre muito alta e estreita. Uma janela isolada, a mais de meia altura da torre.
– Ali nasci eu! Por trás desta janela! – o senhor Castro não deixava qualquer pista de estar a ironizar. E quem o conhecia bem sabia que não estava.
– Não me diga que a sua mãe era lá criada, senhor Castro?
O senhor Castro fez que não ouviu a provocação da Laurinda.

O senhor Castro casou muito novo e teve que encontrar um trabalho para sustentar a família. O pai era professor, não tinha posses para sustentar duas famílias, e nem ele era filho único. Mas nunca aceitou o facto de não ter um curso superior, explicava sempre a toda a gente que não acabou o curso, que lhe faltavam algumas cadeiras. Mas dizia quem o conhecia bem que lhe faltavam era bancos. Que nunca tinha começado curso nenhum. Que era impossível tê-lo feito tendo em conta os sítios por onde tinha andado entretanto. Fosse lá como fosse, o que é certo de fonte limpa é que era ciumento que até doía. Ninguém podia dar atenção a mais ninguém, especialmente aos colegas mais novos da mesma especialidade.

Umas duas ou três semanas antes, quando receberam na repartição uma oferta de um atlas de Portugal, o Carlos folheou, folheou e:
– Aqui está a casa onde eu nasci! Aquela ali no meio das laranjeiras. Quer dizer, já não é a mesma casa, já foi reconstruída.

Tinha sido reconstruída e não apenas uma vez.
Quando fizeram a barragem, aos pais do Carlos foram expropriadas as casas e a terra, que ficariam submersas quando a barragem enchesse. Vieram morar para uma casa pertinho da ribeira, alugada pelo Tio António Boto.
A barragem encheu logo nessa primavera, embora houvesse previsões para demorar três anos. Os canais e restantes infra-estruturas para a rega estavam já feitas. De maneira que logo nesse verão o pessoal regou com água da barragem. Habituados a regar com água das noras, nunca tinham visto tanta fartura de água. Regaram, regaram, regaram, com tanta abundância que a casa um dia começou a derrocar e veio abaixo completamente. Tinha o Carlos cinco meses quando tiveram que sair à pressa e encontrar pousada noutra casa.
A segunda reconstrução foi trinta anos depois quando os herdeiros do Tio António Boto venderam a casa a um casal de holandeses.

Não foi só o senhor Castro, todos fingiram não ter ouvido a provocação da Laurinda. Uns porque acharam que era forte demais. Mas o Carlos foi para não deixar que a conversa se desviasse de onde a queria levar:
– Senhor Castro, você teve azar!
– Então porquê, Carlos?
– Se fizesse como eu que nasci no fundo de uma ribeira, só lhe restava ir subindo. Assim foi nascer no alto duma torre, daí para a frente só podia descer. Não?


Zé Varela, Dezembro 2017

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