AFINAL É TÃO SIMPLES

– Tu não tens vergonha, Arlindo? Andares por aí a dizer às pessoas que ganhas quarenta e tal contos quando alguns meses nem vinte tiramos.
O Arlindo olhou-o com aquele ar com que se olha para uma criança que ainda não sabe nada da vida e abanou a cabeça.
– Um dia destes tens que ir à minha casa, Joaquim. E lá mostro-te uma coisa. – e ria.

Quando os homens do cadastro passaram na terra do Joaquim Colaço, há mais de vinte anos, tinha ele casado havia pouco tempo, logo depois de voltar da tropa. A vida era difícil. Os lavradores pagavam pouco e nunca tinham trabalho para muito tempo. Para arrendar terras precisavam de bons arados e mulas, e estas comiam o ano inteiro. Quando os homens chegaram tinham eles, ele e dois dos irmãos, acabado uma empreitada na estrada de Beja.
– Joaquim, os homens do cadastro andam à procura de rapazes para porta-miras. – contou-lhe o vizinho António Guerreiro.
Foi assim que o Joaquim Colaço começou a trabalhar no cadastro.

Começou como porta-miras, mas depressa o engenheiro Torres notou que ele tinha jeito para o desenho e facilidade de conversar com as pessoas do campo e, muito importante também, revelou um talento especial para escolher as estações. Não são todos que o têm. Nesse tempo não havia GPS, nem sequer ainda aparelhos electrónicos que medem distâncias com quase tanto rigor como medem ângulos e registam só de carregar num botão.

Foi assim que o chefe de brigada o elevou a reconhecedor e isso permitia trabalhar quase o ano inteiro. Mesmo quando as brigadas regressavam a Lisboa no inverno, era útil o trabalho dos reconhecedores a avisar os proprietários para porem os marcos, a marcar as estações, a fazer um reconhecimento prévio muito útil ao posterior levantamento, a recolher os dados dos proprietários.

Foi assim que o Joaquim deixou a sua terra e continuou pelo país fora acompanhando as brigadas do cadastro. Primeiro por alguns concelhos do Alentejo, depois pelo Algarve, depois pela Beira Baixa.

O percurso do Arlindo Crespo foi diferente. Mais velho, trabalhou muitos anos numa serração perto de Leiria, de onde era oriundo. Depois, quando esta faliu, foi para a zona de Lisboa dar serventia a pedreiros. Até que um sobrinho que era desenhador no cadastro, falou com um engenheiro e lhe arranjou aquele trabalho.

Conheceram-se em Aljezur, no concelho de Aljezur, em meados dos anos sessenta.
Nunca se deram mal, mas não acompanhavam muito.

O Joaquim era um homem pacato. Dedicado à família, a Ermelinda e os cinco filhos, que sempre o acompanhavam para onde ia em trabalho.

O Arlindo tinha a mulher a viver lá para Leiria, perto da filha única, já casada. Frequentava tabernas e jogos de batota e tudo o que cheirasse a ambientes menos ortodoxos.

– Batatas? Aqui não encontra quem venda batatas. Não vê? Aqui toda a gente tem o seu bocadinho, ninguém compra.
Foi quando chegaram ao concelho de Mação e se instalaram numa casita pequena na sede da freguesia onde iam fazer cadastro.
A Ermelinda, ao princípio teve alguma dificuldade com os costumes diferente daquilo a que estava habituada. Mas depressa se integrou totalmente na vida da aldeia. A tal ponto que já lhe contavam também os mexericos.

A Ermelinda já tinha aprendido com a passagem por tantos povoados pequenos que só começas a conhecer a terra quando te deixam de ver como um forasteiro. Ao princípio quase todos os povoados são hospitaleiros. Ao princípio também não te podes deixar envolver demasiado com as primeiras pessoas que se insinuam. Quase nunca são as melhores. É preciso deixar assentar. A Ermelinda sabia isso tudo melhor que o marido, ele andava lá fora absorvido pelo trabalho, e quando estava em casa, nomeadamente nos dias de mau tempo, enfiava-se no trabalho. Fazer esboços, fazer listas de proprietários. Havia sempre o que fazer.

– Hoje tens que vir lá a casa, Joaquim. – é a casa que tem alugada numa aldeia ali perto da sede da freguesia. O Joaquim sabe onde é, mas nunca lá entrou.
– Terei todo o gosto, Arlindo. O trabalho está encaminhado.
– Tu e o trabalho. – e ria.

– Queres presunto ou chouriço? Branco ou tinto? Aqui há de tudo, como na farmácia, hahaha. E foi mesmo por isso, além de seres um bom amigo, claro, que te convidei para cá vir. Não convido todos, não penses nisso. Mas tu és bom rapaz, hahaha. Queres ver a minha arrecadação e a minha cozinha. Aqui há de tudo. Vêm-me cá trazer de tudo. E piscava o olho. Há presunto, há chouriços, há toucinho, há carne de porco salgada, há azeitonas, há pão, há azeite, há batatas, há feijão, há de tudo. Pensas que me vinham cá trazer alguma coisa se soubessem quanto eu ganho? Hem, pensas? Estás muito verde, hahaha…


Zé Varela – Outubro 2017

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